HISTÓRIAS DA PEQUENA ÁFRICA - Desmistificando a Pequena África

August 27, 2014

Alguns mitos sobre a Pequena África precisam ser enfrentados. Estes mitos fazem parte de um imaginário social criado por alguns formadores de opinião que apresentam, no nosso entender, graves contradições com os dados aqui apresentados. É equivocado dizer que "os baianos vieram para o Rio depois da Abolição" ou de que "com o 13 de maio os negros vieram das fazendas para as cidades, criando as favelas". Ou de que "A primeira favela foi erguida por ex-combatentes de Canudos na Bahia". Tudo indica que baianos - ou africanos que residiam na Bahia - estavam vindo para o Rio desde pelo menos o início do século XVIII com a febre do ouro. As trocas entre Bahia e Rio, desde essa época, eram intensas, e faltam pesquisas específicas de um lado e de outro. A grande migração de africanos ocidentais da Bahia para a cidade do Rio se dá nos ANOS 1830 e 1840, quando as rebeliões, de um lado, e a decadência econômica de outro, levam muitos escravos e libertos, africanos e crioulos, a irem para a Corte bem antes de 1888.
Também não podemos exagerar as diferenças culturais entre negros africanos eou crioulos da Bahia e do Rio. Naquele período as diferenças culturais eram muito tênues, e as estratégias visavam mais enfrentar a opressão dos senhores do que reforçar diferenças regionais. Este é mais um problema de projetar no passado diferenças culturais regionais do presente.
Quanto ao 13 de maio, acreditamos que pouca mudança operou no sentido de trazer montanhas de gente do mundo rural para a capital do país. A grande maioria dos negros (pretos e pardos) da cidade do Rio já era liberta e livre antes do dia 13 de maio, cujo impacto nas fazendas de café de São Paulo também é relativo, já que as fugas de crioulos "do Norte" tinham inviabilizado na prática a permanência no cativeiro. A grande maioria destes fugitivos, apontam pesquisas recentes, se deslocaram para o litoral paulista, em cidades como Santos, ou para São Paulo, que tem um crescimento espetacular neste período. Na província fluminense cafeeira, economicamente em declínio desde muito, o 13 de maio foi mais um tiro de misericórdia em uma sociedade cambaleante. O medo de um êxodo desenfreado de "libertos do 13 de maio" para a corte, aliás, era usado como ameaça por aqueles que argumentavam contra a libertação incondicional dos escravos. Este medo não se concretizou. A grande maioria dos ex-escravos da província do Rio de Janeiro permaneceu em suas terras, alguns inclusive lutando para não perder direitos conquistados durante a escravidão, como o acesso a terra (a "roça"). Da mesma forma a Favela foi consequência das demolições do final do século, como do cortiço "Cabeça de Porco". Os militares de Canudos talvez tenham trazido a planta, mas já encontraram a favela erguida.
Outra afirmativa descabida é de que a Praça Onze foi o primeiro "reduto da cultura negra" da história do Rio. O Rocio Pequeno, antes de virar Praça Onze em 1865, era um local ermo, pouco frequentado, principalmente antes de 1875, quando das reformas que canalizaram o Canal do Mangue. A população negra preferia as vielas e becos dos morros da zona portuária, difíceis de serem galgados pela polícia, e próximos a sua residência - poucos moravam onde hoje é a Cidade Nova. Somente com a urbanização do século XX, e a emergência dos grandes carnavais de massa, a Praça Onze passará a ter papel efetivo na identidade negra da Pequena África.

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