+CONSCIÊNCIA - Estética Negra Enquanto Militância

August 5, 2014

O cabelo do negro na sociedade brasileira expressa o conflito racial vivido por negros e brancos em nosso país. É um conflito coletivo do qual todos participamos. […] O cabelo do negro, visto como “ruim”, é expressão do racismo e da desigualdade racial que recai sobre esse sujeito. Ver o cabelo do negro como “ruim” e do branco como “bom” expressa um conflito. Por isso, mudar o cabelo pode significar a tentativa do negro de sair do lugar da inferioridade ou a introjeção deste.” (Gomes, Nilma Lino; 2012)

Iniciamos a reflexão citanto o trecho de um artigo de Nilma Lino Gomes sobre a identidade negra a partir do corpo e do cabelo. Essa escolha foi intencional para refletirmos sobre a fala da apresentadora Fátima Bernardes ao defender a “liberdade de escolha” para modificar quimicamente (ou não) o cabelo crespo. Para ela, é muito natural uma mulher optar por alisar o cabelo crespo simplesmente por ser um direito. No entanto, essa afirmação mostra um aspecto muito simplificado quando levamos em consideração o trabalho desenvolvido pelo coletivo Meninas Black Power e também por toda a luta do movimento negro e de pesquisadores sobre a construção da identidade negra no Brasil.

É sabido que no Brasil foi construído um modelo de beleza padronizado, reflexo da classe dominante: branc@, magr@ e cabelo liso. A mídia, também monopolizada por uma elite (minoria) branca, reforça esses esteriótipos de beleza nas suas produções audiovisuais: novelas, comerciais, cinema etc. 

O Brasil vive o mito da democracia racial e padece quando desvaloriza as diferenças/diversidade étnicas e superestima somente a branca. O coletivo Meninas Black Power questiona justamente essa imposição estética. “Alisar o cabelo não é uma opção”. Para elas, o cabelo crespo é o símbolo do orgulho negro e da afirmação da identidade negra. Há também a consonância de militância do coletivo com o movimento iniciado na década de 60 nos Estados Unidos: Black is beatiful, que tinha a intenção de quebrar com os estereótipos de que os traços negros eram inerentemente feios, como a cor da pele, cabelo, formato dos lábios, nariz etc. O movimento reverberou no mundo todo e no Brasil esses questionamentos chegaram nos anos 80.

Além disso, deve ser levado em consideração todo o processo ancestral em relação ao cabelo. Na África, por exemplo, o cabelo, formato, tamanho e penteados, significam algo. É o símbolo de uma identidade. Quando escravizados, o primeiro ato feito pelos traficantes de negros era a raspagem dos cabelos. Isto é, simbolicamente, a perda da identidade do sujeito. Por isso, o cabelo crespo, hoje no Brasil, é o signo da negritude.

“Como qualquer processo identitário, ela se constrói no contato com o outro, no contraste com o outro, na negociação, na troca, no conflito e no diálogo. Como diz Neusa Santos SOUZA (1990, p.77), ser negro no Brasil é tornar-se negro.” (Gomes, Nilma Lino; 2012)

Texto: Luana Dias

REFERÊNCIAS:
GOMES, NILMA LINO. Corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Disponível em http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Corpo-e-cabelo-como-símbolos-da-identidade-negra.pdf . Acessado em 23.dez.2013

CASAGRANDE, MARIA RITA. Negro é lindo. Disponível em http://blogueirasnegras.org/2013/08/23/negro-e-lindo/ Acessado em 23.dez.2013

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